🕷Madelaine – a viúva negra 🕷

escrito por: Damian Mortis e Nero Tenebris

    Na penumbra das vielas úmidas de Paris do século XVIII, onde a névoa dançava entre as chaminés e os sussurros pareciam ecoar pelos becos, uma mulher destacava-se soberana entre aqueles que buscavam respostas no oculto. Madeleine Laurent era o nome que sussurravam os desesperados, os ambiciosos e os traidores. Viúva de um comerciante de cavalos, sua fama como vidente se espalhava pelas casas da aristocracia e pelos salões suntuosos da nobreza. Mas não era apenas pelas suas previsões que Madeleine acumulava riqueza—dizia-se que ela possuía outros talentos ainda mais perigosos.

    Desde muito jovem, Madeleine demonstrava um dom. Ela cresceu em uma vila isolada, uma pequena localidade onde a única presença constante era a de sua avó, Margot Laurent, uma curandeira respeitada. Margot, uma mulher de olhos penetrantes e voz rouca, ensinou-lhe os segredos das ervas, das raízes e a conversar com os agouros trazidos pelas forças naturais. Com mãos calejadas e paciência infinita, guiava a neta pelos caminhos do conhecimento ancestral, ensinando-lhe a ouvir o sussurro do vento nas folhas, a decifrar o significado do voo das aves e a reconhecer a energia pulsante que residia em cada planta e pedra.

    A rotina de Madeleine ao lado da avó era entrelaçada por rituais e ensinamentos. De manhã cedo, saíam para colher ervas nos campos enevoados, e Margot lhe mostrava como distinguir cada folha, cada raiz, explicando quais curavam febres, quais afastavam maus espíritos e quais deveriam ser usadas apenas em ocasiões especiais. Durante a tarde, trabalhavam juntas na pequena cabana, onde a velha mulher misturava unguentos, preparava infusões e entoava cânticos suaves que impregnavam os preparados com intenções precisas.

    A menina observava em silêncio os doentes que imploravam por cura, mulheres que desejavam esconder segredos inconvenientes e homens barganhando favores obscuros. Ela via sua avó não apenas como uma curandeira, mas como a guardiã de um conhecimento antigo, alguém que transitava entre o mundo dos vivos e o dos espíritos, oferecendo conforto ou advertências quando necessário. Cada gesto de Margot era uma lição, cada palavra, um ensinamento velado. Madeleine aprendeu a confiar nos sinais da natureza e, mais importante, a respeitá-los. A verdadeira conexão de Madeleine com o oculto começou. Uma noite, ao sair para colher ervas sob o luar, ela se perdeu na densa floresta. Durante horas, vagou sem direção, até que, exausta, encontrou um círculo de pedras antigas. No centro, uma pequena fogueira ardia, e figuras encapuzadas murmuravam palavras incompreensíveis. A menina não sentiu medo. Em vez disso, algo em seu interior despertou: uma sensação que lhe dizia que ela estava no lugar certo.

    Ela foi conduzida ao centro do círculo, onde uma mulher de rosto encoberto por um véu a olhou com olhos que pareciam enxergar muito mais do que uma criança. “Você é forte”, disse a mulher, sua voz gélida como o vento noturno. “Você carrega o sangue antigo. Agora, prove seu valor.” Foi naquela noite escura, que Madeleine foi iniciada nos rituais ocultistas daquele círculo de pedras. No decorrer do ritual, a mente de Madeleine dançava num transe de êxtase e gargalhadas abafadas por fumaça e cheiros indecifráveis. Subitamente uma faca afiada foi passada sobre a palma de sua mão, cortando ligeiramente sua pele. O sangue escorreu de forma sinistra, desenhando no chão, símbolos até então desconhecidos, e Madeleine foi ensinada a invocar forças que eram mais antigas do que o próprio tempo.

    Quando a faca cortou sua pele, algo profundo revelou-se nela: a brutalidade do poder do culto. Não era apenas uma crença ou uma prática; era uma força visceral, capaz de moldar e destruir a realidade ao seu redor.

    Nos dias que se seguiram aos eventos do circulo algo ainda mais sinistro aconteceu. Depois de um longo dia ajudando sua avó, Madeleine foi chamada às pressas até um estábulo isolado onde um homem moribundo havia sido deixado para morrer. O homem, conhecido na vila por seu envolvimento com práticas ilícitas, jazia no chão, pálido e arfando desesperado. Madeleine, sozinha com ele, inclinou-se sobre o corpo e, em um murmúrio incompreensível, falou algo tão profano e codificado em línguas antigas que não se lembraria. À medida que suas palavras flutuavam no ar, os olhos do homem se arregalaram de horror. Ele tentou gritar, mas nenhum som saiu de sua boca. Madeleine observou, calmamente, enquanto o homem expirava e revigorava-se, um arrepio percorrendo seu corpo, não por medo, mas por uma compreensão aterradora de que ela tinha acabado de tomar o controle sobre a vida e a morte.

    Foi nesse período que Madeleine percebeu, pela primeira vez, a imensa separação entre ela e os outros. A sensação de ser diferente tornou-a ambiciosa por poder e riqueza usando sua magia para se beneficiar. O homem renascido, François Devereaux, se encanta pelo feito e decide tirá-la do interior e apresentá-la à corte do Rei. Eufórica com as promessas do homem de dinheiro e prestígio, os dois rumam para Paris depois de dois anos de convívio onde Madeleine enfim conhecera o verdadeiro amor, ou pelo menos o que ela poderia jurar que era amor e devoção pura. Mesmo que poderosa, a jovem era ingênua e sua malícia ainda não havia crescido no nível que haveria de chegar futuramente.

    Ao chegar em Paris, dois anos depois do episódio de ressuscitação, o casal dirige-se, a convite da corte, para uma festividade no Palácio de Versalhes. A Alta Sociedade, embriagada com seus banquetes suntuosos, fascinou Madeleine de imediato, mas ela ainda não se sentiu completamente parte deles. O trapaceiro François Devereaux, pretendia destacar-se, sozinho, despistando a sua acompanhante para penetrar círculos íntimos e mais nobres, prometendo que ele era o único meio de chegar até a sua ressuscitadora. O trapaceiro desejava conquistar a confiança do Rei para garantir fortuna e status a si mesmo, usando Madeleine e seus poderes como objetos de seus anseios e ambições.

    Todavia ao apresentar as habilidades de Madeleine a um pequeno círculo de curiosos, a notícia chegou de imediato aos ouvidos de uma das principais condessas do Rei Marguerite Vignon que solicitou que seu acompanhante e advogado Armand Leclair a conduzisse até os aposentos íntimos que só os mais importantes membros da corte poderiam testemunhar se Madeleine era um talento considerável de sua atenção.

    Furioso por ser excluído dos convites que Madeleine recebia pelos convivas de maior status, François profere xingamentos a Madeleine na tentativa de intimida-la e constrange-la. Madeleine por outro lado pareceu naturalmente desapontada, como se esperasse mesmo que para crescer na vida, precisaria abrir mão das distrações desnecessárias. e esta, sem muito furor, revoga seus encantamentos fazendo o homem sofrer com os mesmos males dos quais ela o salvou no estábulo. Nessa noite Madeleine conheceu Armand Leclair, através do comunicado que o conviva elegante e esbelto lhe fez em nome da Condessa anfitriã da celebração. Armand era, em seu íntimo, um homem cuja ambição pela ascensão social espelhava a dela. A química entre os dois parecia superar em anos luz a com o canalha que acompanhava a mulher até aquele momento. Madeleine já havia esquecido a atração e “amor” por François, quase de imediato, agora sentia entre as pernas o que achava que poderia arder por um homem apenas no coração, derretendo-se aos encantos do advogado mais bonito, elegante e rico da corte.

     Com um ar de mistério e uma ironia cruel que atraía Madeleine de forma irresistível. Marguerite Vignon, condessa médium do Rei, uma de suas favoritas, testou a habilidade de Madeleine com as cartas e se impressionou com seus dons de adivinhação, absorvendo a nova personalidade parisiense em seu seleto círculo de festividades e eventos. Madeleine havia entendido que a fama e o dinheiro não a abandonariam como os homens, sentiu-se merecedora de tamanha atenção.

    A primeira reunião deste grupo ocorreu na casa de uma amiga de Marguerite, com seus longos cabelos loiros e olhar perspicaz, se impressionou cada vez mais com o domínio oculto de Madeleine. “Você pensa que o poder é apenas o que se vê, Madeleine?”, perguntou-lhe com um sorriso misterioso. “O verdadeiro poder está em dominar a mente. Só assim você controla as almas.

    Marguerite se tornava uma amiga e também uma rival para Madeleine. Ambas compartilhavam a mesma ambição, mas enquanto Madeleine se focava em controlar o mundo físico, Marguerite parecia interessada nas almas das pessoas, nas energias que fluem através delas. Um sentimento de competitividade, misturado com admiração, nasceu entre as duas, e logo as reuniões tornaram-se ocasiões carregadas de tensão.  

A história de Madeleine e a profana corte de Paris continua na próxima postagem na CRIPTAPASTA: 

🕷 MADELAINE: a viúva negra 🕷 PARTE: 2

EM BREVE

FIQUE POR DENTRO DE TODAS AS NOVIDADES

Seja avisado sobre nossos artigos, produtos e ofertas

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *